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Capítulo 1

Thalia

- Corram!
Estávamos perdidos. Essa era a verdade. Éramos oito em uma missão. Missão? Isso mesmo. Nós oito somos semideuses, e isso significa que um de nossos pais é mortal e o outro é um deus. No começo parece estranho, mas depois você se acostuma. Eu acho.
- Subam a montanha - me obriguei a gritar, já que os monstros que nos perseguiam faziam um barulho tão alto e agudo que meus ouvidos ficaram com um zumbido estranho.
- Péssima idéia - Sophia gritou ao meu lado e apontou para frente.
- Ah, não - Danny gritou um pouco atrás de mim e eu não quis virar pra ver qual outro monstro nos cercava.
- Eu não estou mais aguentando - Sam berrava, quase chorando e fiquei um pouco pra trás para ajudá-la. Ela era a mais nova de nós oito. E a única que não havia sido reclamada ainda.
- Florence, é sua vez - gritei pra ela, que assentiu e se concentrou.
Logo comecei a ver raios se formarem no céu e sabia o que estava por vir. Queria abaixar pra me proteger, mas sabia que isso nos atrasaria. Continuamos a correr e esperamos que a Flor desse o seu passo. Enfim, vieram dois raios acima de nós. Um atingiu o monstro que estava no topo da montanha - que eu não tivera tempo de ver qual era - e o outro atingiu o monstro ao lado - uma Dracaenae, mulher com dois troncos de serpentes no lugar das pernas.

- Ainda tem um atrás - Tom gritou - e não vamos conseguir correr pra sempre.
Bela parou repentinamente, mandando todos continuarem andando. Como sempre, sua ordem teve aquele efeito sobre mim que eu odiava. Bela é filha de Afrodite, então ela tinha o poder de influenciar os outros a fazerem suas vontades. Percebi o que ela faria e pedi que Harry levasse Sam com ele.
- O que vai fazer? - seus olhos beiravam preocupação, mas eu sorri.
- Uma coisa que não faço há muito tempo: lutar.
- Continuem subindo - Bela disse e logo olhou para o centauro a nossa frente - Você não.
Bem, se você imagina centauros fofos e legais, está meio enganado. Alguns conseguem ser bem letais. Esse galopava com uma pata machucada, por isso ainda não tinha nos alcançado.
- Você, centauro, vai parar e me obedecer - a voz de Bela falhava um pouco de medo, mas ainda sim ela conseguia um pouco do efeito do charme - Vai correr até cansar, na outra direção e nos deixar em paz.
A princípio deu certo. O centauro começou a dar meia volta, mas o nervosismo de Bela não ajudou na hora de convencê-lo.
- Plano B - eu disse e ordenei a Bela que corresse.
Aproveitei a confusão do centauro e desembainhei a minha espada, acertando seu braço esquerdo. Ele berrou e avançou em minha direção, mas eu defendi e o empurrei. Ele era mais alto que eu, por isso era muito mais fácil me acertar. Mas ouvia Bela gritando de longe, com muita convicção:
- Centauro, pare o que está fazendo.
E assim eu conseguia alguns segundos de vantagem. Consegui desarmá-lo, e quando enfiei minha espada em seu peito, ele se desintegrou, deixando para trás uma poeira cinzenta, como uma brasa de fogueira.
Corri para alcançar meus amigos. Arfava loucamente e apoiei minhas mãos nos joelhos, para recuperar o ar.
- Dois raios - falei com dificuldade, olhando pra Florence - Você se superou.
Ela corava. Tinha conseguido evocar apenas um raio umas três vezes.
- E boa persuasão - virei para Bela - tive que me esforçar para não ser atingida.
Depois de recuperar um pouco de energia, continuamos andando montanha acima, o que não parecia uma boa ideia, ficar na parte mais alta da cidade com tantos monstros atrás de nós. Mas a profecia dizia que devíamos subir para encontrar a chave da missão. Infelizmente parecia que levaríamos dias pra terminar a escalada.
- Olhem - Harry apontou - Um hotel.
Não era estranho ter um hotel no meio do nada. Era plausível apenas porque aquela era uma área de muito turismo. Todos olharam pra mim, como de costume. Eu era líder daquela missão e eles esperavam que as decisões fossem tomadas por mim. Olhei bem em cada rosto que me encarava. Estávamos muito cansados.
- Vamos entrar e pedir dois quartos. Precisamos descansar. Amanhã ao amanhecer continuaremos a busca.
Ninguém protestou.
- Você foi incrível naquela luta - ele falou, ao passar por mim.
Poucas coisas me deixavam desconcertada, mas definitivamente, Harry Judd era uma delas.


Pedimos um quarto para as meninas e um para os meninos. Conseguimos que fossem no mesmo andar, ainda que em lados opostos. Sam estava ao meu lado e olhava assustada para a recepcionista, mas assim que ela falou a palavra "jantar", todos esquecemos - pelo menos temporariamente - os nossos problemas. Escutei um ronco vindo atrás de mim e percebi que Danny se desculpava pela fome. A recepcionista - com o nome de Tamara - nos olhou, solidarizando-se conosco. Nos deu as chaves e fomos quase correndo para os quartos.
- Sou a primeira no banho - Bela gritou e as outras gemeram. Ela demorava demais.
- Bela, no máximo 15 minutos no banho. Isso vale pra todas - olhei pra cada uma, que incrivelmente, assentiram - Precisamos nos apressar se quisermos jantar.
Falar aquilo foi um combustível. Não comíamos nada desde o jantar do dia anterior.
- Soph, fique de guarda, primeiro, ok? Se vocês não se importarem, vou cochilar um pouco.
Sophia assentiu, indo pra perto da porta. Só esperava que os meninos tivessem o mesmo cuidado, porque essa área podia ser cheia de turistas, mas com certeza também era infestada de monstros.

Deitei a cabeça no travesseiro e apaguei imediatamente. Como de costume, sonhei.
- A líder de Atena levará - uma voz começou, mas não via quem falava na escuridão - A pomba, a arqueira e o filho dos Mortos/O Fogo, o Raio, a Guerra/ E a mais nova incógnita decidirá/ A jornada fadada a falhar/ Até o topo deverão seguir/ A arma secreta despertar/ Das mãos do sacrifício virá a mensagem/Oito é o número amaldiçoado/ Oito irão e apenas oito retornarão.

Acordei com um sobressalto. Não conseguia entender a profecia. Tudo bem, sabia quem deveria ir para a missão. A pomba era Bela, filha de Afrodite. A arqueira, Soph, filha de Apolo. Filho dos Mortos... Bem, Harry era filho de Hades. O Fogo, Tom, filho de Hefesto. O Raio era com certeza Florence, filha - de Zeus. Guerra só podia ser o Danny, filho de Ares. Claro que por liderar a missão, eu poderia escolher quem iria comigo. A mais nova incógnita com certeza era Sam, a que chegara por último no acampamento, e ainda não tinha sido reclamada. Me perguntava se era uma boa ideia levá-la porque ela não tinha nenhuma experiência com armas, monstros, missões... mas a profecia era clara quanto a isso. Só não conseguia entender o resto... Oito irão e apenas oito retornarão? Simplesmente isso não fazia sentido...

- Sua vez - Sophia me olhou e vi que tinha uma toalha enrolada nos cabelos.
- Eu dormi por - fiz as contas mentalmente - uma hora?
- Sim. Agora vá. Precisamos nos apressar.
Assenti, indo cambaleante até o banheiro. Já era o terceiro dia da nossa missão e parecíamos não ter progresso. Pelo menos descobrimos de cara o nosso destino, então seguimos direto pra as Montanhas Rochosas. E se tudo desse certo, amanhã chegaríamos ao topo pra descobrir o que precisavam achar. Mas é claro que as coisas não seriam tão simples assim.



Sam

Depois de um jantar bem satisfatório no restaurante do hotel, nós oito nos reunimos no quarto das meninas porque era o maior.
- Aonde dá essa porta? - Sophia perguntou, tentando abri-la.
- Deve ser de comunicação com o outro quarto - Tom deu de ombros.
Soph forçou a porta mais uma vez e desistiu, convencida de que estava trancada.
- Como vamos fazer amanhã? - Harry perguntou, olhando para Thalia.
- Seguiremos em frente. Sairemos cedo daqui, assim que o sol nascer e vamos continuar a buscar... o que quer que tenhamos que encontrar.
- Nenhuma ideia do que possa ser? - Flor arriscou.
- Talvez - Lia suspirou - mas nada que precisemos nos preocupar por agora.
Seu tom indicava que o assunto estava encerrado.

- Lia? - Tom chamou - Não esqueça de montar guarda.
- Eu ia dizer o mesmo. Posso começar a do quarto das meninas.
- Não mesmo -Sophia retrucou -Você  precisa descansar.
- Eu começo - me ofereci - Não estou com sono de qualquer forma...
Thalia analisou-me e eu esperava parecer realmente determinada. Olhou em volta e percebeu que todos aguardavam a sua decisão. Pousou o olhar sobre uma mochila desarrumada no canto e suspirou.
- Tudo bem. Mas vamos arrumar essas coisas antes de dormir. Deixar tudo pronto pra amanhã. Nunca se sabe...
A forma como ela falou parecia até um presságio. Os meninos assentiram e Thalia bocejou.
- Vamos descansar porque amanhã teremos um longo dia - Flor falou, andando até a cama, mas percebeu que Thalia a observava e voltou para arrumar sua mochila.
- Harry - Sophia falou - Fique de guarda e de vez em quando veja se está tudo bem com a Sam, ok?
Eu olhei duramente e enrijeci a postura.
- Não precisa, eu sei montar guarda - Sophia apenas assentiu.
Combinamos que antes do amanhecer estaríamos prontos para sair, o que nos deixava com apenas cinco horas para descansar.
- Boa noite, Sam - Lia falou antes de deitar - Qualquer coisa grite. E me acorde pra próxima guarda em três horas.
Eu me sentei em uma cadeira perto da porta, com minha adaga em punho. Na verdade estava nervosa porque nunca havia ficado de guarda antes sozinha e algo naquele hotel me incomodava demais.
- Esse cheiro - sussurrei, ciente de que as outras meninas dormiam atrás de mim.
CLANG!
Um estampido do lado de fora me fez saltar de susto. Minha mão tremia e eu sabia que deveria checar o que era. Abri a porta devagar, mas um casal passava pelo corredor, ambos embriagados e batendo em tudo no meio do caminho.
Fechei a porta, esperei minha respiração normalizar e logo o corredor voltou a ser silencioso.
Tão logo sentei na cadeira, ouvi passos do lado de fora.
- Quem quer que você seja, pai ou mãe, por favor, me ajude.
Abri novamente a porta e comecei a caminhar pelo corredor. Estava vazio. Continuei andando em direção aos elevadores, tentando chegar até o quarto dos meninos.
- Harry? - sussurrei, mas não obtive resposta.
As luzes do corredor se apagaram e um calafrio percorreu minha espinha. Apertei a adaga com mais força, enquanto ouvia um sibilo que parecia uma risada.
- Quem está aí? - minha voz falhou.
- Deveria me reconhecer, querida. Seu pai teve um caso com a minha irmã, sabe?
- Eu não... eu não consigo te ver.
- Mas é claro que não. Mas claramente consegue me ouvir, certo?
E conseguia. Silvos próximos de mim, de forma que recuei até bater de costas em uma porta.
- Eu sou Euríale, filha de Fórcis e Ceto.
- Anh... ok.
O silêncio que seguiu foi constrangedor. Algo como ela percebendo que eu não fazia ideia de quem era.
- Aposto que conhece a minha irmã. Sempre a mais famosa. Sempre tão cobiçada por heróis que queriam matá-la. Mas e a mim? E a nossa irmã, Esteno? Ninguém queria nos matar, certo? Pois bem, vamos recomeçar. Eu sou Euríale, irmã de Medusa.
Medusa. Medusa não é legal. Medusa é a mulher dos cabelos de serpentes que transforma a gente em pedra. Nada legal. Nem um pouco legal.
- Ah, olha, então, deve ser um engano. Afinal, eu nem sei quem é o meu pai, como você pode saber? Sabe, acho que já vou indo.
Eu tentava enrolar a górgona, me encaminhando cada vez mais para a porta do quarto dos meninos. Com certeza pelo menos um deles estaria acordado montando guarda e talvez ouvisse minhas batidas.
- Você tem o mesmo cheiro que ele. Aquele nojento!
- Pois é. Então tenho que dizer que estamos no mesmo time. Quero dizer, meu pai nunca falou comigo, então não sou muito fã dele não.
Bem baixinho, fiz uma prece desmentindo e pedindo que me desculpasse.
- Sabe, querida, você não me pegou em um dia bom. Bem, acho que vou ter que te matar.
Consegui chegar até o que eu imaginava ser o apartamento dos meninos. Com as luzes apagadas e meu andar trôpego, tive medo de me confundir e bater na porta errada.
- Diga adeus à vida, queridinha.
- Abaixe - ouvi Harry gritar atrás de mim e obedeci.
Sua lâmina passou em uma reta horizontal, cortando a cabeça de Euríale. Eu agora estava abaixada, com a cabeça entre os joelhos, enquanto Harry dizia que tudo ficaria bem.
- Vamos ver como estão as meninas - ele sugeriu, já acordando os outros garotos.
Sufoquei um grito ao ver o nome estampado no crachá da górgona inerte. 
- Era a recepcionista. Era Tamara - consegui dizer.
- Venha - Harry me puxou, me ajudando a levantar.

Depois que todos acordaram e nós contamos a história do acontecido, Lia me parabenizou por ter sobrevivido ao meu primeiro turno de guarda sozinha. Muito consolador.
- Temo que devamos ir embora agora?
- Mas Lia, a gente nem descansou - Bela reclamou, emburrada.
- Faremos isso no caminho. Não acredito que ninguém vá nos seguir se sairmos agora.
- Podemos pegar comida? - Tom perguntou e Thalia logo dividiu o grupo em quatro duplas, para pegarmos suprimentos.
Bela e Tom foram roubar comidas, Harry e Danny ficaram encarregados de conseguir roupas na loja de presentes, Flor e eu fomos pegar todas as mochilas e levar até o saguão de entrada e Lia e Soph foram buscar equipamentos de primeiros socorros e roupas de cama. A noite estava bem fria, mas saímos em busca do desconhecido, antes mesmo de ver os primeiros raios de sol.


Soph 

O dia foi bem tranquilo, se contar um ou dois monstros que achamos pelo caminho. Ao pôr-do-sol, já havíamos montado acampamento e já estávamos em diferentes turnos de vigilância. Ás vezes eu me sentia bem sozinha nessa missão. Bela era namorada do Tom, Flor era mega apaixonada pelo Danny - isso é um fato - e Lia e Harry tinham alguma coisa. Só que ninguém sabia explicar exatamente o quê. Quando fico de guarda consigo pensar sobre a vida. Às vezes componho alguma coisa - obrigada por esse dom, papai. Outras vezes canto baixinho para espantar o tédio. Mas hoje concordamos que seria melhor montarmos guarda em dupla. A minha dupla era o Harry.
- Então - tentei começar uma conversa, enquanto esquentava minha mãos, esfregando-as uma na outra - o que rola entre você e a Lia?
Ele deu de ombros, ainda olhando pra frente.
- Se quer mesmo saber, nem eu sei. É estranho - ele me olhou, acho que para saber se eu era digna de confiança para uma conversa daquele porte - Desde que essa missão começou, Thalia está muito diferente. Parece que envelheceu uns dez anos. Ela está sempre com o pensamento longe, ou bolando alguma estratégia para seguirmos em frente. Não tem tido mais tempo para conversarmos.
Digeri suas palavras e percebi o quão verdadeiras elas eram. Thalia estava sempre com aquele semblante de quem sabe tudo, o que é um horror. Ela está mais séria agora e também mais distante. Exatamente como Harry havia falado.
- Você sabe que ela não queria vir nessa missão, não é? - me senti na obrigação de contar.
- Como não? Ela é a líder!
- Fale baixo, ok? E não posso entrar em detalhes, mas saiba disso: ela não queria estar aqui.
 Ficamos em silêncio, até que eu avistei uma pessoa meio desengonçada correndo e chamei baixo pelo nome de Harry.
- Olhe ali- sussurrei e apontei na direção do garoto que agora já estava perto o suficiente para distinguirmos sua forma.
Levantamos e nos armamos, esperando pelo próximo passo dele.
- Espere - eu falei - Aquele é... Percy! Meu Deus, Percy.
Larguei meu arco e saí correndo.
- Sophia, espere - Harry correu atrás de mim, enquanto eu via Percy se aproximar. Ele sorriu quando me reconheceu, mas só parou de correr quando nos encontramos.
- Sophia - aquele abraço de lado típico do Percy - eu estou muito feliz em ver você.
Corei. Óbvio. Por deuses, ele era Percy Jackson. Se você não sabe o que isso significa, eu explico: ele era gostoso. Bem gostoso e totalmente meu tipo.
- O que aconteceu? O que você está fazendo aqui? E a missão?
Joguei tantas perguntas em cima dele que cheguei a pensar que ele não fosse responder nenhuma. Cumprimentou Harry e começou a explicar, enquanto andávamos de volta ao acampamento.
- Fracasso. Essa é a palavra. Perdi os dois - ele se concentrou pra não parecer abalado.
- Os dois? - assenti - Sinto muito. Mas o que você está fazendo aqui? - repeti.
- Minha missão me trouxe até aqui, mas ainda não descobri o propósito - ele pareceu pensar, o que era bem difícil pra Percy - mas o fato de encontrar vocês aqui com certeza é relevante.
- Você estava no topo? - Harry perguntou.
- Quase no topo. Tudo começou a desabar e desci correndo. Não tive coragem de parar, mas agora vi que não corro mais perigo de ser soterrado.
Ele estava arfando devido ao esforço da corrida, então não falamos mais nada até chegarmos perto dos outro.
- Thalia? - ele perguntou.
- Ela vai ficar feliz em ver você - falei - estava bem preocupada por não ter nenhuma notícia da sua missão.
Ele sorriu e foi até ela.
- AI MEUS DEUSES, THALIA, CORRE QUE O BICHO TÁ PEGANDO! CORRE QUE O CIRCO VAI PEGAR FOGO!
Ele gritou perto da garota e quase foi decapitado. Sua espada passou a poucos centímetros do pescoço dele.
- VOCÊ TÁ MALUCO? QUER MORRER? PERDEU A NOÇÃO DO PERIGO?
Enquanto Thalia gritava, os outros acordavam assustados, com suas armas prontas para serem usadas.
- Bom ver você também - Percy falou e puxou Lia para um abraço, enquanto o restante ria pelo escândalo todo.
- Você está maluco? - ela falou com sua voz mais calma agora, se afastando dele - Eu estava desesperada sem saber de você. Mensagem de íris pra que, né?
- Eu não tive como. Eu... me desculpe, Lia.
Os dois se abraçaram novamente, deixando Harry desconfortável ao meu lado.
- Bom - Harry limpou a garganta - acho que é hora de recomeçarmos a caminhada.
- Mas eu nem consegui descansar - reclamei, mas aparentemente, ninguém ligou.
- Conte o que sabe, cara - Tom falou, depois de abraçar Percy.
- Espera - ele parou subitamente - vocês estão subindo?
Assentimos.
- Mas acabou de desmoronar tudo. Tudo mesmo. Quero dizer, pelo menos eu acho.
- Mas nossa missão aponta para lá - Sam apontou para cima, fazendo Percy prestar atenção pela primeira vez nela.
Ele se aproximou da Sam, cheirando o ar e fazendo uma cara engraçada.
- Você... você é quem?
- Sammy Bradley - ela respondeu com uma voz forte.
- Bem, Sammy Bradley, você definitivamente cheira engraçado.
Todos rimos, obviamente, menos a Sam.
- Como assim?
- Você cheira como eu - ele pareceu desconfiado, pesando se continuava a falar ou não - Você cheira como se fosse minha irmã.
Depois de soltar essa bomba, Percy conseguiu deixar todos calados por pelo menos mais duas horas de subida.

Bela

- Sabe, nem acredito que eu vou dizer isso, mas como eu queria estar no conforto da minha cama agora.
- Tom, sua cama não é confortável, a base dela é de ferro. E só tem uma fina camada de colchonete. E é quente.
- E como você sabe tudo isso, Bela?
- Não se meta, Jones.
Ele abafou um risinho e eu percebi que meu charme não funcionava bem quando eu estava nervosa... nervosa por causa de garotos.
Tom passou seu braço pelo meu ombro, me ajudando a subir.
- Estamos subindo isso há horas? Não podemos parar?
- Mais alguns minutos - Lia bufou e eu estava começando a odiar que ela fosse a líder.
Suspirei.
- Você ta bem? - Tom perguntou, mas ele sabia da resposta. Eu estava cansada como todos os outros, mas ninguém tinha coragem de falar nada.
De repente, Tom caiu -  na verdade se jogou - no chão e todos pararam.
- Câimbra - ele disse somente, mas vi em seus olhos que mentia. Ele estava mentindo para que parássemos e assim eu poderia descansar.
Não seja tão presunçosa,  Bela. Ele pode ter feito isso por ele mesmo. Estamos todos cansados.
Sophia desabou no chão e os outros a seguiram.
- Obrigada - sussurrei pra ele, que sorriu.
Talvez tenha sido por mim então.


O sol já estava a pino e tudo que queríamos era comer e dormir.
- Podemos retornar a caminhada ao amanhecer. Nos revezamos em tarefas. Caça, cocção e turnos de vigia.
- Ao amanhecer? - Lia não parecia estar convencida.
- Ora, vamos. Vocês estão um caco e merecem descansar. Eu pego o primeiro turno de vigia - Percy se ofereceu, passando o braço pelos ombros da garota.
- Mas trouxemos comida do hotel, precisamos mesmo caçar? - Sam perguntou.
- Sim - Harry respondeu - devemos guardar essa comida para emergências.
- Eu vou caçar - anunciei - É muito mais fácil conseguir comida quando eu simplesmente convenço os animais de que é uma boa ideia entrar na armadilha.
- Eu vou também - Tom sorriu.
- Ué? Deveria descansar a perna. Por causa da câimbra - Danny falou, rindo.
- Já estou melhor - ele bufou ao meu lado e convencemos que sozinhos daríamos conta.
- Finalmente, sós - Tom falou o clichê e se aproximou de mim, quando estávamos perto de árvores medonhas. Ele me beijou e ficamos um bom tempo assim.
- Como é bom poder esquecer isso tudo por um tempo. Esquecer da missão, esquecer do mundo. Ficar com você...
Sua mão quente percorria meu corpo com ansiedade. Eu queria. Eu queria muito fazer sexo com ele. Mas sério, nossa primeira vez, no meio da mata, em uma montanha?
- Bela - ele sussurrou meu nome enquanto beijava o meu pescoço e isso me enlouquecia. Senti suas mãos me puxando e meu corpo caindo suavemente em cima do seu. Pude ouvir o barulho de pequenos galhos quebrando abaixo de nós e sentia algo esquentar e latejar nas minhas... bem, partes íntimas.
- Tom, aqui não - gemi, mas ele já subia a minha blusa, passando a mão pelo fecho do meu sutiã. Tirei sua blusa e ajudei a abrir a sua calça. Ele pegou suas roupas e cobriu o chão, me empurrando pra cima delas. Arrancou minha calça com uma puxada e deitou sobre mim. Não só suas mãos eram quentes, mas seu corpo todo também. Tom jamais seria frio. Ele era filho do Fogo.
Ele introduziu um dedo lá dentro e massageou em círculos. Meu primeiro pensamento foi: "Ainda bem que tomamos banho ontem".
Reprimi um sorriso e logo fui me mexendo na direção de sua mão e conforme meu prazer aumentava, mais rápido ficavam meus movimentos. Ele parecia bem animadinho também. Enfiou outro dedo e eu gemi de prazer. Enfiou outro e quando eu achava que não aguentaria mais, ele tirou. Eu briguei com ele. Mas ele colocou algo melhor. Seus quadris moviam-se em minha direção com tamanha precisão que me perguntei se essa também seria a primeira vez dele. Nossos corpos já estavam suados e eu queria que ele colocasse com mais força e rapidez. Ele estava aumentando a velocidade e eu percebi que estava quase lá. Fui à loucura quando alcancei o orgasmo e ele rapidamente chegou ao seu também. Nós dois arfávamos e sorríamos como dois bobos.

Silenciosamente colocamos nossas roupas e fomos tentar achar algo para caçar. O sorriso não saía do meu rosto. Agora eu entendia porque minha mãe estava sempre de bom humor. Ela era a deusa do amor.



Sophia


Bela e Tom voltaram suspeitosamente felizes, mas resolvemos não comentar já que trouxeram comida.
- Coelhos? - Lia perguntou, examinando as peças.
- Sim. E frutas - Tom levou sua mão ao bolso traseiro e entregou a mim diversas frutas que eu desconhecia.
- Isso é comestível? - perguntei.
- Acho que sim - Bela não parecia segura, então Percy fez que não com a cabeça. Sorri pra ele. Era mais forte que eu.
- Vamos comer.
Nos separamos pra cozinhar e então comemos em silêncio já que a fome estava quase esburacando nossos estômagos.
- Esse coelho - Harry suspirou - estava uma delícia.
Concordei com a cabeça.
- Lia e Danny, vocês se superaram - Sam conseguiu dizer enquanto estraçalhava uma coxa.
- O crédito fica todo com os cozinheiros - Bela reclamou - mas aposto que se eu tivesse usado uma flecha pra matá-los, não estariam tão suculentos e macios.
- Ai, tadinha dela - eu ri e ela fez beicinho - tudo bem, Bela, parabéns pela caçada - como levei um olhar insatisfeito, acrescentei - E Tom também - rolei os olhos.
Depois de toda essa conversa, ficamos com sono, mas quando Percy se ofereceu para guarda, esfreguei os olhos e rapidamente acordei, fazendo o mesmo.
- Me conte como foi a sua missão - pedi, assim que os outros foram dormir.
- Nada boa - ele estremeceu - Perdi todos. Léo, Doug, Grover e Annie.
Ele estremeceu mais uma vez ao tocar no nome dela. Ninguém sabia explicar, mas os dois tinham uma conexão. Mas não foi o nome dela que me intrigou.
- Doug e Léo?
- Léo, do acampamento. Filho de Hefesto, lembra?
Fiz que sim, embora tivesse a ligeira impressão de que ele não tinha ficado muito no acampamento desde que eu cheguei lá.
- E Doug - ele continuou - saiu em missão com o Léo. Nos encontramos no meio do caminho, mas no final, me perdi de todos.
- Por que não voltou pra casa ainda?
- Eu fui pra casa. Fui ver a minha mãe, dizer que estava tudo bem. Mas não tive coragem de voltar pro acampamento. Não enquanto eu não encontrar pelo menos um deles.
- Entendo - mas eu não entendia. Ele fracassou. Acontece com todo mundo.
- E como foi parar nessa missão? Quando saí do acampamento você tinha me dito que nunca sairia em uma missão. Que estaria me esperando quando eu voltasse, pra dar uma festa.
- Bom, provavelmente você que vai me esperar. Se algum dia eu voltar.
Aquele silêncio sepulcral tomou conta e eu rapidamente me arrependi do que tinha dito.
- Mas então, trate de fazer a minha festa.
Isso arrancou um sorriso dele e foi o bastante pra mim.
- Está com sono? - ele perguntou, olhando em meus olhos.
- Um pouco - não consegui mentir.
- Então por que você se ofereceu para ser vigia?
- A verdade? - perguntei sorrindo, ponderando se de fato contaria a verdade.
- Sempre a verdade - ele pediu.
- Ótimo. Bom, a verdade é que eu queria passar mais tempo com você.
Ele suspirou e sorriu.
- Esse seu amor por mim ainda vai nos causar muitos problemas.
E me beijou. E eu o beijei de volta. Ele não estava sendo arrogante quando falou aquilo. Ele brincava comigo assim desde que estávamos no acampamento. E de certa forma, ele estava certo.
- Anda - ele se afastou lentamente, sussurrando - deite aqui - e apontou seu colo, que eu fui sem contestar. Talvez tenha sido o melhor cochilo, até que fui acordada pelo Harry.
- Que ótima guarda você é, ein, Harrison?


Thalia

- Minha culpa. Falei que ela poderia dormir, já que estava cansada - Percy se justificou e eu achei estranho, mas nada comentei.
- Agora vão descansar. Queremos vocês bem dispostos mais tarde para que possamos percorrer grande parte do caminho.
Soph e Percy assentiram, ele levantou e estendeu as mãos, para ajudá-la a levantar.
- Você está bem? - Harry perguntou e eu assenti. Ele estava mais carinhoso desde que Percy tinha chegado ao nosso encontro.
- Estou sim - falei, por fim e beijei sua bochecha.
- Que bom - ele sorriu, mas não chegou aos olhos.
- E você? - resolvi puxar assunto - Está bem?
Ele me imitou, com os mesmo dizeres e no final um beijo. Mas foi na minha boca.
- Harry, se importa de ficar um pouco sozinho? - perguntei, querendo colocar meus pensamentos no lugar - preciso buscar água - acrescentei, dramaticamente movendo meu cantil de cabeça pra baixo, para mostrar a secura.
- Sem problema - foi o que saiu da sua boca, mas novamente seus olhos não diziam isso.
Tateei até encontrar o seu cantil também e levei os dois comigo.

Fui andando guiada pelo som das águas. Seria muito mais fácil se Percy estivesse comigo. Me joguei no chão de barro perto da margem do rio e me envergonho de dizer que chorei. Chorei até ouvir uma voz atrás de mim.
- Por que está chorando, semideusa?
Olhei e percebi que já estava amanhecendo. Não, não era isso...
- Espere, você é Apolo.
- Que bom que me reconheceu. Fico grato por isso. Mas antes que eu me arrependa de ter perguntado, por que está chorando?
Limpei minhas lágrimas, encabulada por ter sido vista chorando por um deus.
- É que eu... Eu não possuo poder algum.
- Como assim?
- Os outros semideuses tem poderes. Bela consegue manipular as pessoas, Harry convoca os mortos, até mesmo Sophia é maravilhosa com o arco e seu canto acalma. E eu? Bem, sou uma ótima estrategista. Grande coisa...
Apolo sentou-se ao meu lado e suspirou.
- Primeiro, espero que sua mãe não esteja ouvindo isso, filha de Atena. Ela consegue ficar realmente brava quando é menosprezada. Em segundo lugar, força e poderes bélicos nem sempre vencem batalhas. Estratégias são sempre mais importantes.
Continuei em silêncio e Apolo me olhou.
- Acha realmente que não possui poder algum?
Balancei a cabeça positivamente.
- Então eu te abençôo, Thalia Hoppus. Você sempre foi boa com o arco, mas agora será tão boa quanto Sophia - ele materializou um arco com detalhes dourados e uma aljava da mesma forma. Nela, continham quinze flechas de ponta dourada.
- Ouro imperial - ele disse - diferente do que vocês estão acostumados, mas é tão eficaz quanto. E ele é mágico. Só aparece se você quiser que apareça.
Peguei o arco e passei a mão por sua extensão.
- Ele é... pra mim?
- Teste - Apolo disse e materializou uma maçã, jogando-a para o alto. Posicionei rapidamente o arco e a flecha e acertei o alvo sem dificuldades - Perfeito - ele diz - Mas preciso de um favor.
Bem, era meio óbvio que a benção não viria de graça. Como eu não havia pensado nisso? Que vantagem teria para um deus me abençoar? Mas antes que eu pudesse sequer especular sobre qual seria o favor que teria que fazer para o deus do Sol, ele estendeu a mão, depositando um pequeno pacote entre meus dedos.
- Entregue isso para a minha filha.
Só isso. Sem por favor. Sem obrigada. Senti raiva.
- Por que você mesmo não entrega? Ou peça para Hermes entregar.
Ameacei devolver sua encomenda, mas Apolo simplesmente fechou sua mão e sorriu.
- Não posso ser visto demonstrando favoritismo, Hoppus.
Olhei desconfiada.
- E não posso ajudar em missões. Esse é um presente especial. Quero que diga isso a ela também.
Apenas assenti e virei o corpo para ir embora.
- E Thalia? - olhei em seus olhos, dourados como o sol deveria ser - Pense bem no próximo passo a ser seguido. Vocês podem interpretar errado as coisas e irem além do que querem.
- Obrigada, Apolo. Você sabe, pela benção.
E fui encontrar com os outros, que já montavam acampamento para partir.
- Onde você estava? - Harry perguntou com urgência, aparentemente preocupado.
- Eu.. eu estava na margem do rio. Enchendo nossos cantis, como tinha dito que faria.
Mas eu não tinha nenhum cantil na mão. Na pressa, acabei deixando o meu e o dele na margem do rio. Mas se os outros perceberam, não se deixaram abalar. Eu esperava não estar mais com cara de choro.
- Eu acredito que com mais um dia de caminhada nós consigamos chegar ao topo.
Peguei minha mochila e chamei Sophia.
- Monte retaguarda comigo.
Sophia desacelerou o passo até igualar comigo. Os outros iam na frente, liderados por Harry. Era bom não ter que liderar, pra variar.
- Eu tenho uma coisa pra você - procurei pelos os meus bolsos o que deveria entregá-la. Meus dedos tocaram o pequeno pacote e o entreguei cautelosamente para Sophia.
- O que é isso?
Ela estava claramente animada. Como ficamos muito tempo no acampamento, raramente ganhamos presentes de nossos pais mortais. Nossos pais deuses então, nem pensar.
- Um presente. Um presente do seu pai.
Ela parou de desembrulhar e me olhou desconfiada.
- Thalia, não gosto desse tipo de brincadeira.
- Não é brincadeira - pensei e materializei o arco e a aljava com flechas - seu pai apareceu pra mim hoje. E pediu que eu entregasse isso pra você. - Apontei para o embrulho e fiz com que a arma sumisse novamente de meus ombros.
- E o arco? - Sophia perguntou, esperançosa.
- Bem, o arco... o arco ele deu a mim, mas se você quiser eu posso...
- Não fale isso, Thalia - ela parecia realmente preocupada - Não se recusa um presente de um deus.
E quando terminou de desembrulhar, tinha em mãos um colar de bolinhas minúsculas, com um pequeno pingente de arco e flecha e um de notas musicais - que mais tarde Sophia teria dito se tratar de um clave de sol. O colar era grande o suficiente para passar pela cabeça dela.
- Obrigada, pai - ela sussurrou.
- Ele disse que era um presente especial - Sophia parecia querer ouvir mais, então inventei - E pediu desculpas por não ter aparecido pessoalmente, mas ele não pode interferir em missões. E disse que te ama.
Ok. Provavelmente peguei pesado inventando essas mentiras, mas  sorriso da minha amiga durou o dia inteiro, o que valeu a pena. Exceto pelo sol, que estava escaldante lá no alto, castigando. E eu sabia que era exatamente isso que estava acontecendo: o Sol estava me castigando por ter mentido.


Sam

Fiquei o caminho inteiro conversando com Danny e Florence. Estava na cara que a Flor tinha uma certa atração por ele, o que me deixou um pouco triste.

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